terça-feira, 10 de maio de 2011

o último dia

Falar adeus é sempre difícil. Quando nos despedimos de todos no Brasil, demos só um "até logo". Adeus soa muito definitivo, algo que não tem volta. 
Não sei se algum dia pisaremos outra vez nessa ilha. E hoje foi o dia de desfazer e refazer as malas até atingirmos o peso permitido pela companhia. E também foi o dia de dizer "adeus". Na loja de caridade que trabalhávamos, ao Lajos que dividiu o apartamento conosco por alguns meses, ao gatinho que mora no apartamento ao lado e que nos visita todos os dias... Não imaginava que sentiria isso, mas deu um apertinho no peito!
Acho que nosso futuro apartamento em BH não pode ser muito pequeno. Só mesmo uma precaução, para o caso de todos que convidamos para conhecer o Brasil decidirem aceitar.
Agora... pé na estrada.
Tchau Tiniki!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

21 quilos, pé na estrada e adeus Dublin

Quando saímos de BH fiz minha mãe comprar uma estante de quatro metros de altura para abrigar nossa biblioteca. Com promessas de que iríamos abraçar o mundo digital e não comprar nenhum livro aqui, voltamos atrás e agora não sabemos o que fazer com exatos 21 quilos de livros. São uma mosca comparada à nossa biblioteca que deixamos no Brasil, mas para quem ficará quatro meses na estrada... É isso mesmo, partindo quarta, os dois começam a aventura de suas vidas. Quatro meses costurando a Europa. Deixaremos quase tudo aqui na loja de caridade que trabalhamos por uns meses (e onde fizemos alguns poucos amigos aqui), inclusive metade dos livros. A outra está na mala. Aquela que é impossível deixar. Trabalhei desde Outubro nessa loja separando livros de doação e colocando preço. Nesse processo achei coisas valiosíssimas, como uma coleção do Francis Bacon incrivelmente bela e pesada. A briga com a balança nos rendeu algum stress, mas nada que não passasse imediatamente ao pensarmos: "estamos indo pra Veneza!".
Em breve o blog deixa de existir e dá lugar ao dois aqui e ali, onde registraremos esses quatro próximos meses.
Depois de um fim de semana de chuvas Dublin parece querer despedir-se com um fim de tarde com sol. Amanhã é nosso último dia aqui. São oito meses nessa ilha. Esses meus pensamentos soltos espelham a bagunça do quarto, como no dia que deixamos BH. Largamos tudo de novo.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

que cor é a minha?

Li há pouco tempo uma matéria de 2007 do The New York Times sobre Belo Horizonte. Título: a cidade onde o mundo todo é um bar. E não vou dizer que morro de saudades dos botecos de Beagá para não ficar muito repetitiva, mas fiquei com uma nostalgia danada ao ler um texto "em jornal de gringo" contando como botecos são divertidos.
Pensando nesse texto, me dei conta que saímos da capital dos botecos para vir para a capital dos pubs. Tudo bem, só consigo pensar em uma semelhança entre um boteco e um pub (os dois lugares vendem cerveja), enquanto a lista das diferenças é enorme. 
E algumas das características de Dublin que nunca vou me esquecer estão relacionadas, direta ou indiretamente, ao alto consumo de bebidas do país. Pois é, o governo sobretaxou cigarros e todos os tipos de bebidas alcóolicas para tentar diminuir o consumo da dupla cigarro+álcool, mas não adiantou nada! 
Outra coisa interessante é o "jeito" dos irlandeses beberem. Nós dois somos super fracos para bebidas, mas bebemos uma latinha por dia. Esse é o jeito "errado" de se beber na Irlanda. O "certo" é só beber um ou dois dias na semana, mas imaginar que aquela pode ser a última noite do mundo, por isso... beber até a manhã do dia seguinte e tentar achar o caminho de volta para casa!
Ah, voltar para casa é um problema enorme se a sua casa é em Dublin. Adoro as construções daqui, mas falta criatividade aos arquitetos da ilha. A maioria das casas são iguais umas as outras. Imaginemos a seguinte situação: um indivíduo vira a noite bebendo em um pub (ou em vários) e volta a pé ou de táxi para casa. Já foi muito difícil achar a rua e depois o quarteirão e... eis que todas as casas do quarteirão são iguais! Óh vida cruel!
Para acabar com esse problema sem ter que diminuir na cerveja, os irlandeses arrumaram uma solução adorável - aliás, um das coisas que mais gosto em Dublin: eles pintaram as portas das casas de cores diferentes! Depois disso, os bêbados de todo santo final de semana só têm que se lembrar: "a minha é a vermelha!"
Uma das "consequências inesperadas" da cerveja.

Prédio na região onde moramos:
rosa, azul, vermelho, preto.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

o problema da tradução

No nosso primeiro mês em Dublin, ficamos hospedados na casa da Maureen - conhecida popularmente em Boa Esperança como dona Maurinha - uma simpatissíssima senhora irlandesa que nos ajudou muito.
Um dia ela avisou: preparem-se, pois amanhã vou fazer uma comida típica da Irlanda para o jantar! Ficamos super curiosos e o prato era: purê de batatas, presunto frito (só para o Thiago) e abobrinha cozida. Apesar de uma pontinha de decepção (pois não comemos nada que já não conhecêssemos), fiquei feliz em descobrir que iríamos achar abobrinha com facilidade nos supermercados.
Mas só começamos a cozinhar -  e, consequentemente, a fazer compras - quando mudamos da casa de dona Maurinha para um apartamento. Exatamente quando começou minha busca por abobrinhas.
Fui em todos os supermercados e mercados do centro de Dublin e nada! Há um tempo atrás achei um vidro de abobrinha em conserva importado da Itália. Ajudou, mas não resolveu o problema. Até que descobri que todo esse tempo sem abobrinha foi por puro desconhecimento linguístico!
Em minha ignorância, sempre procurei nos supermercados por zucchini, ou seja, abobrinha em inglês americano (e em italiano). Pois é, a vida não pode ser tão simples e vários termos são diferentes em inglês americano e britânico. Ah, se eu soubesse que courgette era a palavra certa e se as abobrinhas daqui não se disfarçassem de pepino com sua casca verde-escura... minha felicidade poderia ter acontecido antes.

ótima combinação: abobrinha e Guinness!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Despedidas

Pedalando no Phoenix Park

Última semana oficial em Dublin. Tem muita coisa pra se despedir. A começar pelo museu de arte moderna, o coral da Saint Patrick, da Christ Church, do Phoenix Park...

Fomos talvez a última vez no museu na sexta, ver uma exposição da Frida Kahlo, e, claro, fomos também andar de bicicleta no Phoenix Park. Depois de ter atropelado um senhor que, preocupado perguntou se ela não tinha bebido (umas latinhas de Guinness apenas, mas ela negou), entortado o freio da bicicleta alugada, ela e eu ficamos perdidos no parque, cruzamos com centenas de cedros, e, graças a um pneu furado, carreguei a bicicleta nas costas. Uma despedida em um dia lindo de sol.
A caminhada pelo Liffey está mais saudosa, as águas mais negras que nunca. Os sinos da catedral soam mais alto, as flores já fizeram a primavera, e a Guinness está mais cremosa que o normal. A saudade antecipada amplia tudo que é bom aqui. Os irlandeses parecem até que estão cuspindo menos e menos bêbados. Mas que nada, Dublin é a mesma e todo lugar é paraíso agora.



Museu de Arte Moderna de Dublin - exposição especial Frida Kahlo e Diego Rivera.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

em bom mineirês

O tio de um querido amigo nosso, Felipe, publicou um ótimo dicionário de mineirês (ainda vou achar o papelzim com o nome!) Não tem jeito, várias coisas que parecem universais de tão óbvias para quem nasceu ou cresceu em Minas Gerais são saberes restritos e difíceis de entender para não iniciados. E viver outra língua e outra cultura é, com certeza, também voltar à sua própria língua e cultura.
Um dos meus verbetes preferidos do dicionário de mineirês foi "sim". A explicação era mais ou menos o seguinte: em Minas, se aprende o significado da palavra "sim" na escola, mas é algo totalmente em desuso. Afinal, mineiro é um ser, ao mesmo tempo, muito político e em cima do muro para usar termos tão diretos como sim ou não. (De novo, Guimarães Rosa: "raspe-se um pouco qualquer mineiro: por baixo, encontrar-se-á o político...") Falar sim em Minas Gerais - a não ser que você esteja em um contexto extremamente formal, como um casamento - é algo que passa mais a impressão de arrogância do que de afirmação ou certeza. Tenho um amigo que teve o casamento destruído quando a esposa, sem nenhuma explicação, começou a falar sim. "A Maria tá querendo dar uma de inteligente agora, fingindo que sabe falar difícil...
Quando alguém, por exemplo, me faz um convite ao qual eu não pretendo aceitar, a resposta é sutil ("vou ver, qualquer coisa te ligo"...), mas claramente entendível no contexto de Minas.
O problema é que somos mineirinhos demais e muitas vezes nos esquecemos de que essa filosofia de vida  pode não ser facilmente entendida por qualquer um. Especialmente por um europeu. Aqui, se alguém sugere um passeio ou uma cerveja em, por exemplo, duas semanas, significa que um compromisso está oficialmente marcado. Mesmo se a resposta tiver sido à mineira: "ah, tá bom, a gente se fala então e de repente faz alguma coisa..." (Tradução: chance do plano sair do papel é menor do que 5%).
Combinamos - mas foi um trato de mineiro - uma cerveja com nossa professora de inglês. Levei um susto quando ela mandou um e-mail só para confirmar onde seria o encontro. Com uma ressaquinha da noite anterior, impossível seguir adiante com o "programado". Desmarcamos. Confesso que às vezes em situações simples ainda fico perdida na tradução do português para o inglês, pois ainda me é uma tarefa difícil articular a comunicação em termos tão diretos. E o inglês em nada favorece o jeitim mineiro de ser.
Para quem nunca fala sim, como não soar estranho o uso excessivo do yes?